-
O Voo da Mariposa.
- Queria poder dormir.
- O que tá tendo com você, hein?
- Medo.
- Medo? Medo de quê?
- De viver. Medo de tudo isso que está ao nosso lado.
- Mas… ahn? Não entendi.
- É medo, sabe? Medo de poder conversar, medo de ficar sozinho, medo de não ter em quem confiar, medo de não significar nada pra ninguém…
- Sério? Você tá ficando maluco, não acha?
- Não, não acho. Ou talvez esteja, quem sabe? Eu to cansado, cansado disso tudo. Tudo isso me faz doer o peito, me dá nojo. Eu tenho nojo de viver assim, tenho nojo de mim, da minha vida, e de tudo ao meu redor.
- Tudo mesmo?
- Tudo, tudo. Eu to cansado.
- Mas você disse que tem medo de conversar. E cá estamos nós conversando.
- Eu gosto de conversar com você. É que às vezes… às vezes tudo parece cinza demais, entende? É muito cinza, muitos tons confusos.
- Não estou te acompanhando…
- É como se tudo tivesse um propósito escondido, sabe? Não pode haver literalidade, só interpretações erradas.
- Continuo sem entender.
- É o mundo, não percebe? O mundo não permite mais que as pessoas se relacionem. É o mundo que não deixa que ninguém seja gentil com ninguém. É o mundo que vive dos interesses e dos motivos escondidos. Segundas intenções a cada aperto de mão, é disso que eu to falando. É isso que me circula e é disso que tenho nojo.
- Por isso você não confia em ninguém?
- Exatamente.
- Nem em mim?
- Não, com você é diferente. Não sei porque, mas é. Com outras pessoas também, mas eu perdi contato com elas. Você é quem restou para mim.
- Me sinto feliz!
- Não sei se isso seja motivo de felicidade para ninguém.
- Claro que é, pára com isso.
- Ah, não sei… eu nem sei o que eu ando fazendo, o que eu devo fazer… eu não sei de mais nada.
- Eu acho que você anda cheio de dúvidas. Já pensou em conversar isso?
- Já. Na mesma frequência que já pensei em me matar.
- Pára!
- Eu já parei, na verdade. Mas é que… poxa, eu não sei explicar. Tudo o que tem acontecido, tudo isso… tudo é tão, mas tão ruim pra mim!
- Mas você sabe que pode confiar em mim, não sabe? Não precisa me odiar, não precisa ter nojo de mim. Eu me preocupo com você, só isso.
- Eu sei… eu sei…
Mas ele não sabia
- Mas então, deixando esse papo bobo pra lá… quando é o próximo feriado? Queria que você viesse me visitar pra gente conversar.
- Não sei. Mas eu prometo olhar no calendário.
- Okay. Eu estarei esperando!
- Tá certo…
- Tá, até mais, então! Beijos!
- Tchau…
O telefone desligou, mas as dúvidas permaneceram. A chuva caía forte, o céu estava tão cinza quanto a mente dele.
Uma, duas, três… foram necessários vários goles de água para colocá-las pra dentro. Ele sabia que não devia, que a dose certa era somente uma… mas ele queria experimentar. Queria brincar com o que ele não conhecia. Queria ver o que havia além da sua visão. Ele sabia que poderia não voltar, ele sabia… mas ele queria ver o que havia do outro lado. Era tudo o que ele queria conhecer, era tudo o que ele queria saber.
E ele soube.
-
O Último Fragmento
- Sim, hoje eu tenho os meus amigos, a minha família, a minha casa… mas e amanhã? Será que eu vou ter algum deles comigo? Talvez eu tenha nenhum, não acha? Às vezes eu acho que eu já não tenho nenhum deles…
- E eu?
- Não pergunta isso, por favor.
- Tá, eu sei o que você está pensando. É como se você estivesse sozinho, né?
- Aí é que tá, eu estou sozinho.
- É?
- Sim, é. Eu não contei pra você, mas eu perdi o emprego. Eu vivo em casa. Não saio, porque meus amigos eram o pessoal do emprego mesmo. E eles têm os próprios amigos e tudo mais. Fora eles, não sobra ninguém por aqui. É tudo tão… nem sei. É porque eu não encontro ninguém pela manhã, nem pela tarde e nem pela noite… Chega uma hora que você percebe que tem algo errado, sabe?
- Sei…
- A minha sorte é que eu tenho você. Sério. Alguém que eu possa conversar, falar de todas as merdas que acontecem comigo e tudo mais. Mas ultimamente, nem com você eu consigo falar!
- Eu estive andando bem ocupada. Principalmente depois que ele saiu de casa.
- Aí é que tá. Às vezes eu me pergunto qual é o valor que eu tenho para alguém. Isso é, se eu tenho algum valor.
- Pára com isso! Sério, é muito drama até mesmo pra você!
- Não, é verdade! Digo, no meu aniversário eu recebi dois telefonemas!
- Ei, eu te liguei!
- Sim, eu sei. Mas eu pergunto, o que você faria se eu morresse amanhã?
- Que tipo de pergunta é essa?
- Não, sério! O que você faria se eu morresse amanhã? Vai, diz!
- Eu ia ficar triste. Chorar, sem dúvida.
- Eu sei que você iria ficar triste, mas eu acho que a maioria das pessoas que sentisse a minha falta no dia em que eu morresse simplesmente não iria sentir mais nada depois!
- Mas que tipo de papo ridículo é esse?
- Não é ridículo. É só que… quem sou eu, né?
- Você é o meu melhor amigo, serve?
- Sim, serve! E eu me orgulho disso, você sabe! Mas eu digo é que eu vou ser descartado e esquecido um dia. E provavelmente nem precisarei morrer para isso. A própria vida vai se encarregar de estragar tudo pra mim. A gente tem 25 anos agora, e eu não ficarei surpreso se com uns 30 a gente não se falar mais.
- Não podemos prever o futuro, né?
- Não, não podemos. Quem dera pudéssemos, mas é assim que funciona. E eu fico preocupado. Eu não queria perder você. Não queria perder nossas conversas, nada disso.
- Você não vai perder.
- Quem pode dizer? Sei lá, eu acho que somos todos muito descartáveis. Isso me persegue há muito tempo, sabia? Essa dúvida e tudo mais.
- É, eu sei. A gente já conversou sobre isso uma vez.
- Eu lembro. E todos esses anos que a gente passou sem se falar, eu já tinha me acostumado a isso.
- Verdade?
- Sim, a mais pura. Mas quando a gente voltou a se falar, eu comecei a achar que tinha importância de novo…
- Mas você é importante pra mim!
- E porque a gente passou tanto tempo sem se falar?
- Porque a gente perdeu o contato, simples. Mas eu nunca quis que isso tivesse acontecido.
- Mas pode chegar um dia em que você pode querer. Ainda mais comigo, veja só. Estamos aqui, viajando, e tudo o que eu consigo fazer é reclamar!
- É, é uma chatice mesmo.
- Exatamente o que eu disse! Começa assim. Aí depois, tudo o que eu fizer será uma chatice. E aí…
- PÁRA!
- Pfft…
- Olha, sério: Eu não sei o que você está pensando, e nem sei porque você está assim. Mas eu sei que é uma coisa boba. Tudo isso. É claro que você é importante pra um monte de gente, deixa de ser ridículo! Eu nem consigo pensar o que eu iria pensar ou sentir se você morresse amanhã. E eu nem sei porque eu estou falando isso, porque é a última das coisas que eu quero. Você é um dos meus melhores amigos, uma das conversas mais interessantes que tenho! Porque raios você ia achar que eu ia ficar indiferente se do nada eu perdesse ela?
- Não é bem com você, mas com todo mundo. Você é a minha melhor amiga e a única conversa interessante que tenho. Satisfeita?
- Não sei o que aconteceu com você…
- Aconteceu que… aconteceu que depois daquela reunião da nossa formatura…
- O que houve?
- É porque é estranho, sabe? Você passa um tempão sem significar nada pra ninguém. Aí depois vem alguém que te faz se sentir vivo de novo… sei lá, eu fico imaginando coisas estranhas.
- Que tipo de coisas?
- Eu tive um pesadelo ontem. Sonhei que tinha acordado no quarto de visitas da casa da minha mãe, e que tinha ido até o quarto dela para acordá-la. Só que ela estava se sentindo mal, gritando que estava se sentindo mal. Ela acordou minha irmã e o meu irmão, e eles vieram falar com ela. Ela disse que sentia que alguém tinha morrido, mas não sabia quem. Eles correram pela casa e foram até o quarto de visitas. Eu fui com eles, seguindo de perto seus passos. Aí eu vi, com eles, que quem estava morto era eu.
- Que triste…
- Sim! Eu fico imaginando como deve ser isso de morrer, sabe? Eu fico preocupado com isso. Digo, eu passei sete anos longe de todos os meus melhores amigos. Passei esses malditos sete anos vivendo aquela relação polida, hipócrita e falsa com os meus colegas de trabalho. Sempre estava feliz, sempre estava bem, sempre estava tudo, mas eu nunca estive realmente daquele jeito. Nunca. E simplesmente porque eu não sentia nada daquilo. Eu me sentia fragmentado sabe?
- Fragmentado? Como assim?
- Fragmentado. Despedaçado. Porque assim, eu acho que nós somos feitos de momentos. Cada momento é um fragmento, e são esses fragmentos que nos definem como nós mesmos. Um fragmento de vida, um fragmento de esperança, um fragmento de sensação, um fragmento de amor… e todos esses fragmentos ficam colados para nos formar, formar o todo. Quando você morre, eu acho, você deixa de existir, você despedaça. E eu me sentia despedaçado, me sentia morto. Reencontrar todo aquele pessoal que foi importantíssimo para a construção de vários desses fragmentos foi algo que me recompôs. Mas agora eu fico imaginando que, a qualquer momento, eu posso despedaçar novamente. Sei lá, acho que a pressão da vida é muito forte em cima das nossas cabeças.
- Entendi. Você tem medo de ficar sozinho e que isso tudo aconteça de novo com você, é isso?
- Sim e não. Eu não tenho medo de ficar sozinho porque eu vivo sozinho. Às vezes eu até prefiro ficar sozinho de tudo e de todos. O meu grande medo é ser descartado e…
- Esquecido?
- É, esquecido.
- Bom, eu nunca vou te esquecer. E você sabe disso. Até porque, não tem como te esquecer.
- Obrigado.
- É, é verdade. Eu acho que não dá mesmo. Você sempre foi importante pra mim. Te reencontrar foi um dos momentos mais felizes que eu tive nesses últimos anos.
- Pra mim também. Mas eu ainda tenho os meus medos.
- Medo de fragmentar de novo?
- É. Não dá pra prever o futuro, não é verdade? Aliás, eu mesmo acho que a felicidade é um desses fragmentos que nos forma. E que ele geralmente vive caindo, sabe? Não é fácil viver justamente por isso.
- A menos que você tenha bons amigos do lado.
- É, mas eu não tenho os meus bons amigos exatamente ao meu lado.
- Tem sim. Eu estou do seu lado agora. E… se você fechar os olhos, mesmo quando a gente voltar pras nossas respectivas casa, eu aposto que você vai sentir eu cutucando a sua nuca!
- Como você fazia na escola…
- Como eu fazia na escola! E, quer saber? Sem querer me achar, mas eu acho que eu sou um dos seus fragmentos aí.
- Que pretensão!
- Não, verdade. Eu acho que os nossos amigos são partes dos nossos fragmentos, que eles nos completam. E eu acho que eu te completo, de alguma forma. Bom, você me completa. Essa é a verdade.
- Espero mesmo…
- Sim, é a verdade. Agora olha, quer parar com isso? Não aguento ver você assim, todo borocochô.
- “Borocochô”! Essa gíria era do tempo da minha vó!
- Eu sei! É pra ver se você dava uma risada. E bom, funcionou! Agora quer deixar de besteira e ir correr na neve comigo? A gente precisa aproveitar o nosso tempo aqui!
E assim eles foram. E brincaram, e sorriram. E até viveram muito tempo depois disso. Não deixaram de se falar, até que ele fez 47 anos e despedaçou. Por completo. E ela chorou, chorou muito. E muitas outras pessoas choraram. Não foi um enterro para uma multidão, mas todos os seus grandes amigos estavam lá. E eles estranharam quando, dentro do caixão, não viram o corpo dele, mas apenas fragmentos. Fragmentos de esperança, fragmentos de sonhos, fragmentos de sorrisos, fragmentos de amor, fragmentos amizade… fragmentos de vida.
-
And SEX was always there from when I was only eight years - tempting me leave thirsty
Sweat, skin, a PULSE divine to balance this restless MIND - it seemed so wonderfully physical
Oh the BLOOD, the lust, the bodies that color the world: all drugs to die for! Won’t you share my fire?
How can LOVE make that world a minefield of forbidden GROUND?
A map of untouchable skin and SILENCED desire?And love was there in vain, PROFOUND and deep but traced with pain - too early for a child of TEN
Loving the pure and sane he sought the goddess unstained - watching them turn to flesh again
HUNGRY for both the PURITY and SIN
Life seemed to him merely like a GALLERY of how to be
And he was always much more HUMAN than he wished to be
But there is a LOGIC to his world, if they could only seeWishing - Sickened - Ill - Ticking
SOMEONE still this hunger (it’s in my blood) always growing stronger (ticking)
BUDAPEST I’m learning, Budapest you’re burning meThis is not who I wanted to be, this is not what I wanted to see
She’s so young so why don’t I feel free now that she is here under me? -
Fragmentos de Esperança
Ela acabou por encostar-se no banco. O trem ia lento por entre a grande paisagem gelada, coberta por um horizonte branco de montanhas. Fixou os olhos durante longos instantes num lago congelado, e depois olhou pra frente.
- Como é que isso foi acontecer?
- Não sei. - Ele falava com a voz taciturna - Mas tá do jeito que tá.
- Talvez fôssemos jovens demais.
- Nós achávamos que o mundo era perfeito, tudo acontecia da nossa maneira.
- É… - ela deixou as reticências se perderem pelo deserto congelado. - Mas acabou que não é assim, né?
- Quem dera se fosse!
- Eu… - ela hesitou por um instante, mas então tomou coragem e falou - Eu sonhei com você ontem.
- Verdade?
- Aham. Estávamos viajando pra praia… lembra aquele pessoal da festa de reunião da turma da formatura?
- Claro que lembro.
- Então, tava todo mundo no carro.
- Todo mundo?
- Tá, não era todo mundo. Mas era a maioria.
- E o que acontecia?
- A gente só conversava. A gente tava indo comprar uns potes de sorvete, acho.
- Então o Zeca tava no carro?
- Pior que tava! Isso explica o sorvete.
- Ele é viciado em sorvete!
- Sim, sim. Ele iria adorar conhecer esse sorvete aqui - Ela indicou com o polegar para as montanhas geladas.
- É.
Silêncio. Quatro olhos encostados na janela, vendo somente o espelho de suas almas.
- Não sei porque tudo foi ficar do jeito que ficou. - Ele continuou a conversa, achando seus pensamentos tristes altos demais naquele silêncio.
- Ah, depois que vocês foram embora, muita coisa mudou.
- Verdade?
- Sim. Quem ficou por lá começou a brigar um com o outro… ficou um saco! Eu não conseguia mais olhar no rosto deles, juro!
- Mas… mas porque foi ficar assim?
- Eu acho que foi a falta que vocês faziam. Poxa, os três eram meus melhores amigos, saíamos juntos todo dia e pá, de uma hora pra outra os três estão de malas prontas, cada um partindo pra um canto do mundo! Se fosse pra um canto do país era melhor…
-…mas ao invés disso nós paramos no mundo.
- É.
- Eu acho que “o destino é inexorável”. Isso é uma frase bem famosa num livro que eu gosto de ler.
- O que você quer dizer com isso?
- Conhece as Norns da mitologia nórdica?
- Não.
- Elas são três fiandeiras que ficam na raiz de uma árvore gigante que liga todos os mundos, a Yggdrasil, e lá elas tecem o destino de todos nós. Elas sabem nosso futuro, e riem das decisões que nós tomamos quando pensamos que podemos controlá-lo. Entende o que quero dizer?
- Mais ou menos.
- O que eu digo é: Naquela época, a gente achava que viveríamos todos juntos pelo resto das nossas vidas, certo?
- Aham.
- Mas o destino é inexorável, e ele nos jogou para direções diferentes, cada um de nós. E isso destruiu muitos sonhos que a gente tinha juntos.
- Isso é verdade. - Apesar de se esforçar para disfarçar, a voz dela agora soava embargada.
- Tipo a nossa banda, ou as viagens que a gente planejava fazer… nada disso deu certo.
- É estranho isso, né?
- O quê?
- Isso. A vida. Tudo, na verdade. É estranho como vivemos essa montanha-russa, como uma hora tudo parece estar bem, e na outra tudo parece estar mal. E entra em loop o tempo todo. Naquela época, a gente imaginava um mundo ideal, a nossa utopia. Aliás, eu arrisco dizer que a gente vivia na nossa utopia. E aí, aos poucos, tudo o que a gente havia foi se desconstruindo, e se desconstruindo…
- Até virar só restar uma fagulhinha.
- Um fragmento, talvez.
- Um fragmento da esperança. Da esperança de ver tudo se tornando real, de estarmos juntos, de rirmos juntos. De contarmos piadas, trocar olhares, de sairmos para ir à praia, de tudo isso.
- É. Mas você acha que a gente consegue fazer tudo isso de novo?
- Não, eu acho que não. O que está feito, está feito. Precisamos seguir em frente. Não dá pra gente ficar revirando o passado, não dá pra se perder em algo que a gente sabe que não volta. Precisamos olhar pra frente e seguir. Okay, eu sei que não é fácil, mas… não há nada que podemos fazer, né? O desti…
- O destino é inexorável!
- Verdade. - Os olhos dele tinham um orgulho, um lampejo dos bons tempos.
- Ah, queria eu poder ter essa conversa todos os dias.
- Mas eu prefiro assim. Ela se torna única.
- Eu espero que o única seja no sentido de ser especial!
- Sim, sim! Fica tranquila.
- Eu estou. Aliás, como não ficar tranquila olhando essa beleza aí fora?
- É. Um deserto de gelo.
- Assim como nós.
Posted on January 13, 2012 with 2 notes ()
-
[O Elemento Pt. 12] - Como Se Enterram Os Sonhos
Era uma madrugada qualquer de uma estação qualquer de um ano qualquer. Naquela casa qualquer no meio daquela cidade qualquer, haviam dois seres humanos quaisquer: Daniel e Sophia. Um havia sido devorado e regurgitado pelas drogas. O outro, na verdade, a outra, estuprada pelo padrasto. Eram duas crianças, de 16 e 15 anos, mas já haviam caminhado pelas brasas da vida, as brasas que queimam nossos pés a cada dia. Mas eles haviam sentido a dor da pior maneira, da mais dolorosa.
Eles eram vermes mínimos tentando se alimentar da carne podre do mundo. O globo pútrido de imbecilidade e alienação. O globo que nutria bilhões de vermes, iludidos pela ideia de uma carne fresca. O globo que, dia após dia, se desintegrava em sua própria podridão. E ali, duas crianças despreparadas para sentir o que sentiam, estavam se afundando na bile que emanava de cada poro daquele belo e imenso globo.
Sophia, calada, conversava com a garotinha que vivia em sua cabeça, a garotinha que a fazia acreditar na beleza do mundo, a garotinha que, ultimamente, andava um tanto moribunda.
-
O que há com você, Sophia?- Não sei.
-
Tem certeza?- Não. Sabe aquela carta do Daniel?
-
Sim.- Ela mexeu comigo. Ela me deixou… me deixou triste.
-
Não fica assim.- Mas é pra ficar como, caralho? Ela está me machucando! A cada dia, aquelas palavras… o eco daquelas palavras explode no meu peito!
-
Ele estava passando por um momento ruim ali. Não se preocupe, agora vai ficar tudo…- Você é burra, porra? Será que não consegue perceber que ele estava certo? Será que não consegue entender que ali, naquele texto, ele me dissecou? Ele mostrou o que eu sentia e tentava esconder? Ele mostrou algo que eu nunca, mas nunca, conseguiria falar para ninguém? Eu não conseguiria falar nem mesmo pra você!
-
Se acalma, querida. Você sabe que…- Não, a verdade é que eu não sei de nada. Eu não sei o que sentir, eu não sei o que fazer, eu não sei o que pensar… eu não se de nada.
-
Porque você não fecha os olhos e respira um pouco? Talvez…- Não!
-
Eu sei que você só está falando assim porque está irritada.- Vá à merda. Vá à merda! Vá à merda, sua inútil!
-
O que você quer dizer com isso?- Eu estou dizendo que isso tudo é uma bosta! Esse mundo, do jeito que está. Tudo isso, cada centímetro dessa merda toda.
-
Sophia, o que…- O que eu quero dizer é que eu não acredito no que você me diz, porra. Um mundo melhor? Dias melhores? Isso é um blá blá blá ridículo! Isso é você tentando me iludir de que há algo para se importar por aí. Você acha mesmo que há algo para se importar por aí?
-
Acho.- Pois você está errada, isso é o que eu acho! Acho que você acredita nisso tudo porque você é burra! Burra! O que há de melhorar nessa merda de mundo?
-
O que aconteceu com você, Sophia?- O que aconteceu é que eu acordei, só isso. Mesmo quando eu era -argh!- devorada por aqueles olhos, eu acabava dormindo à noite pensando em um fim para aquilo. Quando eu corri pra fora de casa, eu também imaginava um fim pro meu sofrimento. Quando eu encontrei o Daniel…
-
Eu sei que você encontrou o amor…- Não, eu não encontrei!
-
Sim, encontrou. Eu sei.- NÃO SABE!
-
…- Talvez… talvez, mas isso não importa. Mesmo depois que eu encontrei o Daniel, as nossas conversas, as coisas que a gente fazia… eu imaginei que aquilo seria duradouro, aquilo seria o fim para tudo aquilo que eu havia desesperadamente corrido para encontrar.
-
E foi, não foi?- Não, porque eu percebi que era tudo maquiagem. Era tudo uma máscara para me fazer sentir bem. Uma máscara que você colocou em mim para me fazer sentir bem. E eu acreditei nessa merda toda!
-
Mas Sophia, eu não coloquei máscara alguma. Você era feliz. Você é feliz. A máscara está em você agora.- Puta que pariu. Puta que pariu! Será que nem mesmo agora você consegue parar de ser essa mentirosa escrota que você é?
-
Mas eu estou falando a verdade, Sophia.- Ah é? Então porque eu estou chorando agora? Então porque eu estou como o meu coração explodindo por dentro? Porque será que eu estou aqui, falando com você, discutindo com você, enquanto eu poderia estar me sentindo bem, como você diz? Você mente pra mim, é isso que você faz.
-
Não, Sophia. Eu não estou mentindo pra você. Porque eu faria isso, já que somos uma só?- Porque você quer me fazer ser mais uma porca cega no meio dessa pocilga enorme! Você quer me fazer acreditar que haverá um fim para o sofrimento, mas não há! Você quer me fazer sofrer!
-
Sophia- Ela levou a mão ao rosto inundado em lágrimas -Não sou isso que você pensa. Eu quero seu bem, o bem do Daniel. Você o ama, e ele ama você. Ele quer te ver feliz, não vê?Sophia agarrava os joelhos enquanto deixava o seu rosto ser acariciado. Ela olhou para a outra Sophia, aquela angelical e de rosto imaculado, que a observava de perto. Acreditar ou não nela? Sophia tinha dúvida. Duvidava porque ela não conseguia entender nenhuma palavra do que aquela outra Sophia dizia. Não em sua total plenitude. Ela entendia manchas do todo, meras sobras do que era pronunciado. Ela não fazia verter a essência, não captava a mensagem como um todo. Ela estava confusa, sua cabeça doía, seu coração queimava e ela era um saco de ossos repleto de sangue e carne, apenas. Ela chorava por dentro e por fora.
Distante da garota, no outro sofá, Daniel, que acabava de acordar, apenas visualizava uma Sophia. A Sophia que ele admirava, mas que parecia estar se desintegrando. A Sophia que ele lutara para compreender e proteger. A Sophia que ele fazia questão de ajudar a cada segundo. Era a menina mais bonita do mundo. A mais gentil. A mais inteligente. A mais interessante.
Ela era o Memorial, o Monumento, o Obelisco das coisas boas, a trindade dos bons momentos. Ela era a sua Felicidade, o seu Amor e a sua Paz. Mas ali, na sua frente, ele não conseguia perceber que a sua Catedral, a sua Sophia, desmoronava.
E naquela noite qualquer, Sophia regeu o réquiem de dois sonhos.
-
Fragmentos de Vida.
- Mas… você não vai ficar?
- Não sei. Acho que não.
- Porquê?
- Não sei se quero isso pra mim.
- Mas… isso o quê?
- Eu não sei. Olha, é uma vontade minha de sair por aí, e tentar viver sem essas preocupações tradicionais.
- Se largar no mundo?
- Basicamente. Mas tendo controle da minha vida, sabe?
- Acho que sim. Mas… tinha que ser agora?
- Tinha. Se não fosse agora, talvez eu nunca conseguisse sair daqui.
Aqueles braços delicados de porcelana se enroscaram em seu pescoço.
- Eu vou sentir a sua falta.
- Eu também. Mas não se preocupa. Ele estará aí pra você.
- Sim, eu sei. É só que…
- Eu entendo. Na verdade, não entendo não, mas procuro entender. Eu imagino. É, eu imagino o quão complicado deve ser.
- É porque eu não conseguiria ficar longe dele, sabe? Não dá pra mim.
- Eu sei, eu sei. Vocês são como irmãos, não é?
- É.
- Imagino o quão deva ser complicado. Só imagino. Nunca tive irmãos para manter essa relação fraternal aí.
- Mas e os seus amigos?
- Nunca os tive também. Você é a primeira.
- Não brinca.
- Não estou brincando. Você é a primeira a se importar, cuidar, e dar atenção a mim. Nem de longe eu estou brincando.
Ela o abraçou mais forte. Ele sentiu o calor dos braços dela penetrar o seu pescoço, sentiu a sua respiração e os batimentos cardíacos. Era como se ela estivesse explicando para ele que, juntos, eles emanavam vida e esperança.
- Olha, o que acontece é que… puxa, é que eu preciso ver o que há lá fora. A vida inteira eu passei nessa cidade. Nem visitei as cidadelas vizinhas! Eu estou louco para sair por aí, estou sedento por vida e exploração. Quero explorar esse mundo, minha querida, eu quero ver o sol nascer dos quatro cantos do planeta!
Um lindo sorriso de lamentação foi-se pintando de cinza no delicado rosto de porcelana.
- Esse seu espírito aventureiro…
- Sim, o meu espírito aventureiro.
- Eu queria te acompanhar. Sim, eu queria. Mas eu não conseguiria. Morreria de saudades na primeira semana.
- Talvez. Ou talvez não.
- Não, eu morreria sim. Primeira semana.
- Mas você não tem vontade de ver o mundo?
Um suspiro.
- Tenho. Tenho, tenho sim. Mas é que eu sou tão covarde.
- Você não é covarde.
- Eu sou sim. Eu queria poder pegar as minhas coisas e me largar no mundo com você, explorá-lo com você. Mas aí eu paro para pensar, e todas as minhas responsabilidades aqui, todas as minhas coisas. Ele…
- Ele é a sua maior âncora, né?
- Sem dúvida.
- Mas tudo bem, ele é quem te ajudou quando eu estava perambulando pelas ruas escuras tentando encontrar quem eu sou.
- Não só aí, mas em cada ponto importante da minha vida.
- Eu sei. E é por isso que você quer ficar aqui. Pagar essa dívida de honra com ele.
- Exato.
- É, isso eu não entendo. Talvez não seja tão bom em manter compromissos.
- Isso não é verdade! Você só esteve passando por um momento ruim.
- Momentos ruins, momentos ruins… se fosse depender disso, eu nunca mais faria nada na minha vida.
- Porquê?
- Porque estou repleto de momentos ruins! Na verdade, são desespero da minha mente, gritos que me fazem querer explodir. É a vontade de sair, de viver, de conhecer o mundo. Essa vontade me perturba muito!
- É, você me contou das noites sem dormir e tudo mais.
- Isso mesmo. Eu não aguento mais elas, sabe? Eu quero sair. Eu preciso sair…
- Você vai sair.
- Eu vou sair, verdade.
- Eu só espero que volte.
- Eu irei voltar. Por você. E por ele.
- Nós ficaremos felizes em te ver de volta.
- Eu também.
Ele se abaixou e pegou a mala. Ela tocou o seu pulso direito, que estava tensionado para suportar o peso da bagagem, que caiu no chão quando ele afrouxou a mão e a abraçou.
- Você precisa ir agora?
- Não sei. Talvez sim. Se eu não for agora, pode ser que eu desista.
- Sinceramente? Eu queria que você desistisse. Mas isso é egoísmo meu. Você precisa do seu ar, não precisa? Precisa sair e viver, não é?
- É.
- Então vai. Mas volta.
- Eu já disse que vou voltar.
- Eu vou esperar cada segundo.
- Cada um deles?
- Cada um.
- Então quando eu chegar a gente fala sobre isso, porque eu também estarei contando cada um deles.
- Eu sei que vai.
Um último abraço esquentou aqueles dois corpos do frio que fazia. Eles não haviam percebido, mas chovia forte naquele meio de Maio. Quando ele colocou o pé pra fora do perímetro do lar, ela começou a verter a primeira lágrima, que marcou um rastro em seu rostinho de porcelana. Ele, por sua vez, seguiu firme em seus passos, com suas fúrias e paixões a gritar dentro de si.
Eles ainda não sabiam naquele meio de Maio, mas 51,321,600 segundos depois, seus braços se encontrariam num apertado abraço que os faria emanar vida novamente.
-
Fragmentos de Sensações
Havia sido uma festa incrível. A reunião daquele grupo, após tanto tempo, havia feito todos colocarem a conversa em dia e aproveitar. Aproveitar porque eram amigos, e a amizade não estava em voga naqueles dias. E aproveitar porque o nosso tempo é curto, e no final você acaba por perceber que cada segundo pode ter sido em vão.
Todos estavam dançando na boate, mas ela havia sentado do lado de fora. Preferia ver as ondas batendo na areia sob o céu cor de piche. Ela preferia ficar sozinha com seus pensamentos e seus amigos imaginários, em seu próprio mundo completamente intricado e complexo. Ela estava com os olhos fixos na rebentação quando ele chegou. Sentou-se ao lado dela e ficou a olhar o mar também.
Quando o grupo ainda era unido, costumavam viver juntos. Eram como irmãos, e dessa forma se tratavam. Mas o tempo e a distância acabara por erodir os pilares dessa relação, que foi se desgastando aos poucos. Mas ele sentou-se ao lado dela, e com os quatro olhos atentos ao mar, eles falaram
- Isso lembra a formatura, né? - Pararam, se encararam, e sorriram.
- Bastante - Ela falava, voltando o rosto para as ondas.
- Mas, diferentemente daquele dia, a festa estava mais animada.
- Também tá de saco cheio dessa música? No nosso tempo era bem melhor, né?
- Sem dúvida. Se lembra que aquele cara bêbado entrou no lugar do DJ, e…
- …E começou a tocar, sim! Claro que eu me lembro. Ele tava muito doidão naquele dia.
- E dizem que ele ainda voltou pra casa dirigindo!
- Nossa! Mas vê só, éramos todos uns irresponsáveis.
- Talvez. Mas talvez fôssemos mais felizes, não acha?
- Porque diz isso?
- Não sei. Só acho isso.
- Ah, você mudou bastante nesse tempo.
Ele encarou um pouco as ondas que iam e vinham lentamente.
- Você acha mesmo?
- Aham. Todo esse nojo pela sociedade.
- É porque às vezes dá vontade de sumir, né?
- É?
- É, eu tenho essa vontade. De falar tudo o que eu tenho pra falar, de fazer o que eu tenho pra fazer e poof, desaparecer.
- Mas… e as pessoas que se importam com você?
- Não são lá tantas - Uma risadinha de consolação acompanhou as gotas de melancolia que transbordavam de sua boca.
- Ah, uma coisa que não mudou foi essa sua mania estúpida de se auto-depreciar.
- Não é isso! É só porque… porque talvez elas nem liguem tanto.
- Mas você ligaria de sumir?
- Talvez.
- Porquê?
- Porque… porque…
- Porque você se importaria de ver algo que tem aqui sumir, não é?
- É.
- O quê?
- Ah…
- Tá, eu entendi. Não precisa dizer mais nada!
Risadas acompanharam a exclamação, como se não fosse preciso mais nada para que eles pudessem se entender. E não precisava, realmente.
- É porque eu sentiria falta dela, sabe?
- Mas como é, você gosta dela e tudo mais?
- Não sei. É mais admiração, sabe? É porque ela é tão única.
- Algo típico seu.
- O quê?
- Ficar babando por coisas únicas e diferentes.
- Ah, tenho culpa de gostar da originalidade?
- Não, não tem.
- Falando em original, se lembra daquela vez que a gente comprou pastel com dinheiro falsificado?
- Nossa, e como eu iria esquecer?
- E depois a gente saiu e se escondeu atrás da porta da escola pra ficar comendo lá
- Sim, foi um dos dias mais divertidos da minha vida.
- É, agora são só um amontoado de cenas jogadas na nossa cabeça.
- É…
- Uns fragmentos das sensações que a gente tinha naquela época, vivendo aquilo.
- Coisas que não voltam, né?
- É. E agora cá estamos, quase 25 anos de idade, sentados na frente da praia, ouvindo música ruim de fundo e conversando sobre isso tudo.
- Ah, mas até que tá sendo bom, não acha?
- Acho. Faz um tempão que a gente não se vê
- Faz um tempão que a gente nem conversa.
- É.
Ambos ficaram balançando os pés, brincando com os cadarços desamarrados dos seus tênis.
- Obrigado.
- Obrigado? Mas o que eu fiz?
- Você? Me fez lembrar o que era a amizade.
- Ahn? Como assim?
- Essa conversa, essas lembranças… nunca mais as tive com ninguém.
- Mentira sua.
- Não é. Eu tenho vários colegas no trabalho, mas nenhum que eu posso chamar de amigo.
- Isso é ruim, cara.
- É, eu sei. Por isso obrigado.
- Ah, obrigada você.
- Eu? Eu também fiz alguma coisa?
- Fez. Me fez lembrar o quão eu era feliz.
- Ah, como se você não fosse agora.
- Eu sou. - Ela ponderou durante alguns segundos - Ou talvez não seja.
- Sério? O que há?
- Não sei. A vida, talvez.
- Sempre ela.
- Ah, a verdade é que eu precisava disso. Lá em casa as coisas andam complicadas.
- Porquê?
- O meu noivo, sabe? Ele anda muito mal ultimamente.
- Nossa, o que houve?
- Misto de desemprego, crise existencial e bebida. E isso tem me deixado triste.
Um braço cauteloso se aproximou das costas dela, envolvendo-a tão levemente quanto o toque do veludo.
- Não fica triste. Isso vai passar.
- Pode ser que sim. Mas esperar desse jeito dói.
- É, eu imagino como deva ser.
- É bem pior que isso.
- Eu sei.
- Mas… eu posso te pedir um favor?
- Claro.
- Até a festa acabar, não me deixa ficar sozinha?
- Nem um segundo.
- É porque eu não quero ter que pensar mais um dia inteiro nisso. Quero tentar esquecer tudo isso que passou, cada segundo.
- Sem dúvida. Não se preocupa. Até o último segundo dessa festa, eu não deixarei você pensar em um grão de coisa ruim! E falando em coisa ruim, lembra aquele professor de Geografia?
E a conversa continuou durante toda a noite, atravessando a madrugada e culminando no nascer do sol. Durante esse tempo, eles reorganizaram cada peça do seu imenso quebra-cabeça, cada fragmento de sensação, e remodularam a velha amizade, a verdadeira amizade, a fraternidade que possuíam um pelo outro. Afinal, é disso que é feito o Karma. E no final, o amor que você recebe é igual ao amor que você dá.
-
Era uma vontade absurda de sumir. Ele queria dizer para a Menina do Sol o quão brilhante ela era, o quão alto ela merecia subir. Mas ele era mudo, um boneco de pano esticado sobre a lareira. E então ela se foi, sem saber um pingo do que o pequeno bonequinho havia para dizer.
-
[01001100] - 00110001
01001111 00100000 01101110 01100001 01110110 01101001 01101111 00100000
01100101 01101110 01110100 01100001 01101111 00100000 01111010 01100001
01110010 01110000 01101111 01110101 00001101 00001010 01000001 01110100
01110010 01100001 01110011 00100000 01100100 01100101 01101100 01100101
00101100 00100000 01101101 01100101 01101101 01101111 01110010 01101001
01100001 01110011 00001101 00001010 01001111 00100000 01110000 01101111
01110010 01110100 01101111 00100000 01100101 01101101 01110000 01101001
01101100 01101000 01100001 01100100 01101111 00001101 00001010 01000100
01100101 00100000 01100011 01100101 01101110 01100001 01110011 00100000
01100001 01101101 01101111 01101110 01110100 01101111 01100001 01100100
01100001 01110011 00001101 00001010 00001101 00001010 01000001 01100100
01101001 01100001 01101110 01110100 01100101 00101100 00100000 01101111
00100000 01101101 01100001 01110010 00001101 00001010 01001111 00100000
01100100 01100101 01110011 01100011 01101111 01101110 01101000 01100101
01100011 01101001 01100100 01101111 00101100 00001101 00001010 01001111
00100000 01110000 01110010 01101111 01110000 01110010 01101001 01101111
00100000 01100110 01110101 01110100 01110101 01110010 01101111 00001101
00001010 01001001 01101110 01100011 01100101 01110010 01110100 01101111
00100000 01100011 01101111 01101101 01101111 00100000 01100001 01110011
00100000 01101111 01101110 01100100 01100001 01110011 00001101 00001010
00001101 00001010 01001111 00100000 01101110 01100001 01110110 01101001
01101111 00101100 00100000 01110100 01100101 01101101 01100101 01101110
01100100 01101111 00100000 00001101 00001010 01000001 01110110 01100001
01101110 01100011 01100001 01110010 00100000 01100101 01101101 00100000
01100100 01101001 01110010 01100101 01100011 01100001 01101111 00100000
00001101 00001010 01000001 01101111 00100000 01100100 01100101 01110011
01100011 01101111 01101110 01101000 01100101 01100011 01101001 01100100
01101111 00101100 00100000 01110000 01100001 01110010 01101111 01110101
00001101 00001010 00001101 00001010 01001101 01100001 01110011 00100000
01101100 01100001 00100000 01100100 01100101 00100000 01101100 01101111
01101110 01100111 01100101 00101100 00100000 01110000 01101111 01110010
00100000 01110100 01110010 01100001 01110011 00001101 00001010 01000100
01100001 00100000 01100110 01101111 01110010 01110100 01100101 00100000
01101110 01100101 01100010 01101100 01101001 01101110 01100001 00100000
01110001 01110101 01100101 00100000 01101110 01100001 01110011 01100011
01101001 01100001 00100000 00001101 00001010 01000011 01101111 01101101
00100000 01100001 00100000 01101101 01100001 01101110 01101000 01100001
00101100 00100000 01100101 01110011 01110100 01100001 01110110 01100001
00100000 01101111 00100000 01110011 01101111 01101100
-
Cabeça Tubarão, Pg. 68
“Imagine que você está dentro de um barco, remando em um lago.
É verão, bem de manhãzinha. Aquela hora em que o sol ainda não despontou no horizonte e as sombras compridas são projetadas no céu, enchendo a claridade de listras. Os raios de sol aquecem a sua pele conforme você navega por eles, mas o ar ainda está gelado na sombra, e o acinzentado se agarra como pode aos cantos e às bordas da paisagem.
Uma leve brisa pastosa vai e vem, criando ondulações por toda a água e balançando seu barco de leve, conforme ele flutua pelas porções yin-yang da manhã. Os pássaros estão cantando. É um som claro e nítido, livre daquele burburinho de fundo de um dia prestes a começar. Há o ruído ocasional do vento nas folhas e o splish-splash de uma onda maior quebrando no barco, mas nada além disso.
Você vai até a borda do barco e sente o choque da água, o balanço constante do lago levando seus joelhos pra cima e para baixo em um ritmo indiferente. Você tira os braços da água e curte a sensação de pós-dor na ponta dos dedos. Com as mãos para cima, você fecha os olhos e experimenta a singela lei da gravidade e da resistência, conforme o líquido procura caminhos através da pele, forma gotinhas de peso suficiente e então cai, cada gota com um audível ploc.
Então, bem na hora do ploc: pare de imaginar. Pare. Agora é pra valer. Aqui vai a verdade ao mesmo tempo óbvia, maravilhosa e terrível: o lago da minha cabeça, o lago que eu imaginei, acaba de se tornar o lago da sua cabeça. Não importa se você nunca me viu ou não sabe coisa alguma ao meu respeito. Eu poderia estar morto, poderia ter morrido cem anos antes de você nascer e mesmo assim - pense nisso com atenção, pense além do sentido óbvio da coisa e descubra o fascinante milagre escondido por trás dela - o lago da minha cabeça se tornou o lago da sua.
Por trás, por dentro ou através das duzentas e trinta e três palavras da minha descrição, por trás, por dentro ou através dessas mil e dezenove letras, há uma espécie de correnteza. Um fluxo puramente conceitual sem massa, peso ou matéria, e sem ligação com o tempo ou a gravidade; um fluxo que só pode ser visto caso você olhe sob o ângulo exato em que estamos agora, enfim, um fluxo que corre do meu lago imaginário diretamente para o seu.
Agora, tente visualizar todos os fluxos de interação humana de comunicação. Todas as correntezas interligadas passando pelas pessoas por meio de textos, retratos, discursos e matérias de TV; fluindo através de lembranças em comum, relações casuais, fatos testemunhados; tocando passados e futuros, causas e efeitos. Tente visualizar esse enorme entrelaçado de lagos e correntezas, veja seu tamanho e impressionante complexidade. Esse cenário imenso e rico. Essa hidrovia paradisíaca e todas as informações, identidades, sociedades e indivíduos.
Agora, retorne a seu lago, de volta ao barco balouçante. Mas, desta vez, conheça o lago; descubra como ele é de verdade, e, quando estiver pronto, dê uma olhada junto à borda da embarcação. As águas são claras e profundas. A luz do sol já surgiu e corta os triângulos azuis do lago, rumo a profundezas geladas e cristalinas. Sem fazer barulho, sente-se, espere e assista. Não se mova. Fiquei muito, muito imóvel. Dizem que a vida é perseverante. Eles dizem: dê metade de uma chance, ou menos que isso, e a vida irá crescer, existir e evoluir em qualquer lugar, por mais inóspito e improvável que seja. A vida sempre encontrará um caminho, dizem. Fique muito imóvel. Continue olhando para a água. Continue olhando e preste muita atenção.”